Festival gratuito reuniu bandas de diferentes vertentes e reforçou a importância de espaços de protagonismo para mulheres e pessoas LGBTQIA+ na cena independente.
O Heavy Beer, na Rua Ceará, abrigou uma noite quente no última dia 08 de agosto — e não apenas pelo que marcava o termômetro. A Tomarock Produções realizou mais uma edição do Tomarock Girl Power, festival underground gratuito com um line-up formado exclusivamente por bandas com mulheres em sua formação. O evento reuniu nomes importantes do underground carioca, como Diabo de Saia, Trash no Star, NoSunnyDayz, Texuga e Máskaras de Vidro, e ainda trouxe ao Rio o fenômeno The Mönic, que já passou por grandes palcos, como os do Rock in Rio e do Knotfest.
A noite começou com a Diabo de Saia, que rapidamente atraiu a atenção do público que chegou cedo. O rock and roll “feito com rancor” da banda ocupou o espaço com personalidade. A área interna do bar permaneceu movimentada, com um público atento e participativo diante da apresentação comandada pela frontwoman Akemi e companhia, incluindo a baterista Larissa.

A Trash no Star não deixou a peteca cair. Seu som urgente parece nos transportar diretamente para o Riot Grrrl dos anos 1990, mas sem soar como mera reprodução de uma fórmula do passado. O Girl Power da apresentação ficou a cargo de Letty, nos vocais e na guitarra, e Hanna, no baixo, em uma performance que manteve a energia da noite em alta.

Em seguida, veio a explosão da NoSunnyDayz, liderada pela vocalista Nina, cuja performance é sempre uma aula de potência vocal e presença de palco. A banda ainda presenteou o público com algumas músicas inéditas, em português, que estarão no próximo álbum, atualmente em processo de gravação. Entre as novidades, uma participação especial aumentou as expectativas do público para o que a banda trará em seu próximo lançamento.

Já eram altas horas quando um público que parecia longe de estar cansado se entregou à atitude levemente debochada da Texuga. Sem cerimônia, as meninas Ana Clara Martins, Marcela Valverde e Thaís Catão transformam em palavras e melodias diretas a disposição de ser protagonista da própria história, sem se intimidar com as opiniões não solicitadas dos caras. Estar em um show da Texuga é perceber que a base vem muito forte: competente, segura e confiante, sem pedir licença, como deve ser.

O ponto alto da noite ficou por conta da The Mönic, que, desta vez, contou com Luisa Phoenix no baixo, substituindo Joan Bedin à altura, titular das quatro cordas da banda. Como de costume, houve muita presença de palco e troca com o público. Dani Buarque alternou vocais limpos e fry scream, como em “Lobotomia”, single pesado que também fez parte do repertório da noite. Ale Labelle, no vocal e na guitarra, e Daniely Simões, na bateria, completam a formação que fez tremer o palco do Heavy Beer.

Não poderia faltar um dos momentos de maior interação dos shows da banda: durante “TDA”, Dani desce do palco, participa da roda e convida uma garota da plateia para tocar junto. Dessa vez, uma jovem de apenas 14 anos trocou de lugar com Luisa e assumiu o baixo, aprendeu os acordes na hora e representou muito bem uma geração de meninas que começa a se enxergar com mais frequência nos palcos e não tem medo do desafio de ser uma rockstar, ainda que por alguns minutos. Como bem disse Dani durante a apresentação: “Tem muita mina precisando apenas de uma oportunidade pra ter sua banda e mostrar o que sabe fazer.”
A noite terminou com um excelente tributo a Pitty, artista que hoje ocupa um dos lugares mais importantes na representação feminina do rock nacional. Quem assumiu essa missão foi Harumi Hishunuma, vocalista da Máskaras de Vidro, entregando um encerramento à altura da proposta do festival.

No fim, o Tomarock Girl Power foi uma catarse para quem esteve ali. Um encontro para um público diverso e aberto a ouvir e curtir música autoral feita a partir de outras perspectivas, que escapam do padrão historicamente dominante do rock: masculino, hétero e cis. E talvez essa seja uma das maiores forças do festival: não se trata apenas de colocar mulheres no palco. Trata-se de criar espaços em que diferentes pessoas possam produzir, tocar, ocupar, experimentar e ser protagonistas sem precisar justificar sua presença.


Todas as bandas que participaram do evento podem ser encontradas nas plataformas de música e nos eventos underground que acontecem constantemente pelo estado do Rio. O Tomarock Girl Power não precisava provar nada sobre a capacidade ou o talento das mulheres envolvidas na cena underground, incluindo a excelente produção de Suelen Miller. Mas o festival pode ser citado como um bom exemplo de que existe público, qualidade e, principalmente, uma cena diversa e inclusiva pulsando.




