“Existir é Resistir”: o novo EP da Trash No Star que faz dar valor ao tempo e ao pensar

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Uma reflexão sobre persistência, resistência e a força sonora do novo trabalho da banda fluminense.

O questionamento “Vale a pena seguir tentando?” vira e mexe ressoa na minha cabeça. Talvez, na sua, caro leitor, também paire no ar. A resposta para essa pergunta chega normalmente em forma de música, quando um artista ou uma banda de qualidade, que tem muito bem definido o que quer dizer, o faz por meio de grito primal e guitarras distorcidas.

O grito primal é uma técnica criada pelo psicólogo Arthur Janov, que ficou muito conhecida por meio de John Lennon, ao falar sobre o tema nas décadas de 1960 e 1970. A técnica tem como base expurgar o sofrimento guardado de forma física e vocal, o que foi feito em larga escala pelas riot girls dos anos 1980 e 1990, com primor, em catarse e muito fuzz, num mundo que era mais fechado mentalmente do que o dos dias atuais.

A banda fluminense Trash No Star, com o lançamento de Existir É Resistir, dá seguimento à tradição de bandas noventistas de noise, grunge, punk e experimental, como L7 e Sonic Youth, transformando identidade e maior liberdade de expressão diante do esgotamento social em algo com sentido sonoro. Isso nos leva ao questionamento sobre “seguir tentando”, feito no início do texto, pelo fato de a banda ter trazido um EP com sete faixas. Algo cada vez mais raro no mercado fonográfico atual, mostrando que o viés de ir contra a maré, para o rock, é muito mais importante do que seguir tendências. Até porque o som e o discurso que a banda traz são enormes e não caberiam em uma faixa ou duas. Não à toa, o projeto demorou 12 anos para se consolidar, documentando um processo que atravessa o tempo.

O EP começou a ser gravado ainda nos anos em que a banda integrava o selo Transfusão Noise Records, mas acabou interrompido pelas urgências da vida real. Em 2015, a guitarrista Lety e a baixista Hanna fundaram o selo Efusiva, iniciativa voltada à circulação de produções independentes de mulheres e demais artistas dissidentes. Pouco depois, em 2016, nasceu a Motim — espaço cultural criado inicialmente por Lety e posteriormente construído coletivamente também por Hanna —, que permaneceu ativo até abril de 2024, promovendo shows, encontros e protagonismo para mulheres e pessoas LGBTQIA+ na cena independente do Rio de Janeiro, em conexão com todo o país. Infelizmente, um projeto teve que acabar para o outro nascer. Das cinzas da Motim, a disponibilidade de tempo tornou possível o foco em Existir É Resistir, que pode ser considerado também uma homenagem à casa, já que o álbum fala justamente sobre a cabeça e a luta diária da classe que o espaço cultural abraçou.

Em termos sonoros, o trabalho conduz muito bem, por meio de suas melodias, temas difíceis, como viver entre opressão e sobrevivência, tentar encontrar espaço para amar, respirar e continuar sonhando apesar das violências estruturais impostas às pessoas pobres, trabalhadoras, periféricas, pretas, mulheres e dissidentes. Em sua maior parte, parte do barulho e do ritmo rápido do punk, passa pelo dançante e termina em uma “balada pesada”. Vale pontuar que diferentes versões da banda se encontram no trabalho, como as baterias feitas por Safira e a presença de Eden, também ex-integrante, que participou gravando as guitarras da faixa “Medo”.

Quanto ao questionamento “Vale a pena seguir tentando?”, deixo que as sete faixas — “Girls”, “Catch the Sun”, “Candy”, “Existir É Resistir”, “On Fire”, “Eu Não Quero Ouvir Você” e “Medo” — mostrem, com suas verdades e vida diante do cotidiano que temos aqui, por que este é o álbum underground mais necessário para o AGORA.

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Foto de Roani Rock

Roani Rock

Apenas um jornalista falando do que gosta perdido no rock 'and' roll. As vezes, vocalista da Vicejo e da GranMostarda.

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Apenas um jornalista falando do que gosta perdido no rock 'and' roll. As vezes, vocalista da Vicejo e da GranMostarda.

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