Quem esteve presente no Circo Voador na noite deste sábado (26 de setembro de 2026) certamente jamais irá esquecer o que viu e viveu ali, após presenciar uma verdadeira exaltação ao rock produzido no Nordeste.

Reunindo duas gerações, por um lado tivemos Zepelim e o Sopro do Cão e Papangu representando a nova geração, por outro tivemos a clássica referência Ave Sangria. E as três bandas representaram muito bem, com shows memoráveis em mais uma noite histórica para o Circo Voador e para o Rio de Janeiro, levando não apenas antigos fãs — principalmente de Ave Sangria, que nunca haviam tido a oportunidade de ver a banda —, como também muitos jovens e até crianças, que curtiram e cantaram as músicas.
Destoando em termos de som das demais, porém na medida certa pra aquecer o público que ía chegando, Zepelim e o Sopro do Cão chegou mostrando o peso do rock paraibano no palco do Circo. A banda de Campina Grande mistura hardcore, punk e rap e, formada em 2006, traz também em seu som muitas referências dos anos 1990, de bandas como Planet Hemp, Chico Science e Nação Zumbi, Rage Against the Machine, Fugazi, dentre outras, porém imprimindo uma forte identidade própria.

Com um show de muita energia, groove, entrega e peso, Zepelim e o Sopro do Cão chegou para mostrar a que veio, num repertório que circulou pelos seus dois álbuns de estúdio (Caranguejo de Açude, 2024, e Arquibancada Sol, 2025). Se em estúdio os álbuns já são bons, é ao vivo que se vê como funcionam bem, com um hardcore preciso, sem nenhum tipo de atropelo e empolgante, apresentando muitos riffs e solos que te prendem, porém sem aquela fritação desnecessária que às vezes cansa. Certamente a banda conseguiu conquistar um novo público com esse show e é uma banda que merece atenção. E quem chegou mais cedo pra prestigiar a apresentação dos caras certamente anotará na agenda para assistí-los novamente eu outra oportunidade.




Em seguida foi a vez daquela que seria a banda mais aguardada por muitos dos que foram ao Circo Voador neste dia: Ave Sangria. Quando Lencinho subiu ao palco para anunciar o show, o que se viu foi uma verdadeira catarse coletiva.

Após uma breve introdução feita pelo próprio Lencinho sobre a história da banda, Marco Polo e Almir entraram ovacionados no palco, acompanhados de músicos de altíssima qualidade.
Tendo se apresentado apenas uma vez no interior do estado do Rio, a banda chegava pela primeira vez à capital, fato que fazia com que muitos ali (eu inclusive) aguardassem com ansiedade por esse acontecimento desde seu retorno aos palcos de forma mais consistente, em 2019 (poucos shows haviam sido realizados desde 2012).

E foi uma verdadeira aula de psicodelia nordestina durante aquela uma hora e vinte que passamos ali. Havia de tudo um pouco: pessoas emocionadas, empolgadas e deslumbradas com aquilo que presenciavam tão de perto.

Passando por músicas como Geórgia, a Carniceira, Lá Fora, Dois Navegantes e Seu Waldir — faixa que fez com que a banda fosse censurada durante o período da ditadura militar no Brasil —, o repertório contou também com as mais recentes Vendavais, Olho da Noite e Silêncio Segredo, dentre outras, todas cantadas por um público que se mostrava empolgado e apaixonado pela banda.



Com som e luz perfeitos, aquele foi o clima ideal para que Marco Polo, Almir e toda a banda recebessem a energia que vinha do público e retribuíssem da mesma forma, demonstrando não só energia, como carisma e felicidade ao ver um Circo lotado cantando suas músicas, que atravessam cinco décadas. Isso mesmo após um hiato de 40 anos, algo que, infelizmente, muitas vezes faz com que bandas e artistas caiam no esquecimento.

Infelizmente, devido ao tempo que tinham no palco, o bis teve que ser cortado, deixando aquele gosto bom de quero mais. E esperamos por um retorno em breve da banda à cidade.
Para fechar a noite, a também aguardada por muitos Papangu chegou pela segunda vez ao palco do Circo Voador trazendo seu “prog rock troncho nordestino”. E a banda da Paraíba mais uma vez mostrou toda sua versatilidade, com repertório mais curto do que em outras oportunidades, quando pôde se apresentar por mais tempo em outras casas da cidade. Porém, em nada isso tirou o gigantismo do espetáculo que, mais uma vez, vimos a banda apresentar e que vem atraindo cada vez mais público para seus shows por onde passa.

Infelizmente, parte do público não ficou para a apresentação da banda e perdeu o que se viu ali. Transitando entre faixas dos seus três álbuns — Holoceno, Lampião Rei e Celestial — Papangu entregou muita versatilidade, improviso, entrosamento e técnica, numa apresentação magistral, mostrando a força do seu som ao vivo.
Apesar de um público já demonstrando sinais de cansaço, o show que contou com faixas como Boitatá, Maracutaia, Rito de Coroação e São Francisco, entre outras, empolgou o público presente fazendo com que muitos cantassem, pulassem e até abrissem rodas na platéia. Mais uma vez, a banda deixa a cidade preparada e de portas abertas para uma próxima visita.
Ao final da noite tive oportunidade de trocar uma ideia com integrantes da Papangu e do Zepelim e o sopro do cão e foi lindo obter relato de ambos de como estavam emocionados e felizes em poder dividir o palco com Ave Sangria, referência para muitos, ali, no Circo Voador.
Parabéns e obrigado ao Circo Voador, à Submersa, à A Grande Roubada e principalmente as bandas por proporcionarem e entregarem um evento tão grandioso como esse.
Essa foi uma daquelas noites inesquecíveis que certamente ficará registrada na memória, além de mostrar que há uma cena forte de rock fora do eixo Sul-Sudeste que merece atenção.










