“Uma Sexta-feira de Sol” representa um dia perfeito para parar na esquina, mas não necessariamente para dizer goodbye. E, no Rio de Janeiro, um dia de sol é motivo de sobra para se reunir com os amigos — isso é fato. O dia 25 de setembro foi um desses momentos de celebração: após uma semana de céu nublado e chuva, a data em que se comemoraria o aniversário de Ricardo Spencer, “um bom brasileiro” que nos deixou de forma abrupta, acabou abençoada pelo sol.
Spencer foi diretor de filmes e videoclipes que marcaram o rock nacional; sua partida repentina, em julho, causou enorme comoção entre fãs, amigos e os muitos músicos com quem trabalhou. Mas o dia 25 já estava reservado. A diferença é que a celebração se tornou uma homenagem póstuma, que culminou em uma noite especial e nostálgica, reunindo no mesmo palco o Vanguart — com seu folk rock emotivo — e a Cachorro Grande, banda gaúcha que carrega a energia do rock de garagem inspirado nos clássicos do britrock.
Apesar de os sons das bandas não conversarem tanto entre si, trata-se de dois nomes que compartilharam o auge popular na mesma época: um período em que o videoclipe ainda era uma obra cultuada e peça fundamental para catapultar um single ou consolidar a identidade de um álbum inteiro. Portanto, trazer essas duas forças para celebrar Spencer não foi apenas um ato de memória e amizade, mas também um lembrete do poder audiovisual que moldou toda uma geração do rock brasileiro.
Antes dos shows, uma mostra com os clipes feitos por Spencer era exibida no telão, enquanto o DJ Damasound esquentava a pista tocando muitos sons ingleses dos anos 1980 e 1990. Vale destacar também a presença do artista plástico Gen Duarte, que inaugurou no Circo Voador um mural de sua autoria, destinado a ficar para a posteridade.
Só para o Vanguart, Spencer produziu cinco clipes; para a Cachorro Grande, foram seis. Além desses amigos, é dele a produção do clipe de “Reza”, de Rita Lee, e dos marcantes vídeos de Pitty para “Me Adora” e “Na Sua Estante”. Por sinal, a cantora baiana foi a artista com quem o cineasta mais trabalhou, totalizando sete parcerias.
Começando os trabalhos, o grito “Spencer presente”, inicialmente ecoado pela voz de Hélio Flanders, vocalista e guitarrista do Vanguart, foi entoado a cada brecha pelos artistas. Em dado momento do show, deveras emotivo, Flanders disse:
“Fã do Pavement e do Sonic Youth, fã de cinema. Aqui estou falando de mim… Cara de 50 anos, fã de Pavement, do Sonic Youth e de cinema. Agora estou falando de Ricardo Spencer. Todas as canções hoje são pra ele.”
Ao longo de uma hora de show, a banda mato-grossense apresentou seus clássicos de forma dinâmica, trazendo faixas bem solares até a chegada de “Intervenção Lunar”, um verdadeiro ponto fora da curva. O grupo também aproveitou para anunciar o próximo disco — com uma pegada mais rock ‘n’ roll —, que sairá em vinil pelo clube da revista Noize. Para dar um gostinho do novo trabalho, escolheu “Cachaça”, que é “quebradaça”. O desempenho chamou a atenção: a união da melodia com a interpretação vocal dava a impressão real de que a banda tocava embriagada.
O show também marcou o retorno de Messias Bandeira aos palcos. Sua banda, Brincando de Deus, foi a primeira a ser agraciada com um clipe dirigido por Spencer. “Ele monta essa rede de afeto…”, relembrou Messias antes de puxar “De Profundis”, faixa lançada originalmente em 1995 no álbum Better When You Love (Me).
Rafael Spencer, irmão de Ricardo, também subiu ao palco para cantar com o Vanguart. Nesse momento, foi lembrado que o evento havia sido organizado inicialmente para celebrar o que seria o aniversário de 50 anos do diretor e que, mesmo se sua morte não tivesse ocorrido, a data do show já estava reservada. “Nosso Sol”, a música preferida de Ricardo dentro do repertório do Vanguart, foi cantada a plenos pulmões pelo público presente. Em seguida, Rod, ex-Cachorro Grande, vestindo uma camisa do Bahia com “Spencer” e o número 50 nas costas, cantou “Semáforo”, um dos primeiros hits do Vanguart. Por fim, todos os convidados se reuniram para um cover de Pavement.
Após cerca de 20 minutos, a Cachorro Grande tomou o palco trazendo sua energia de costume — mesmo agora com novos integrantes, como o baixista Eduardo Barretto, que também toca na banda da carreira solo de Marcelo Gross.
Logo de início, o grupo engatou uma sequência enérgica de petardos dos primeiros discos, como “Você Não Sabe O Que Perdeu”, “Que Loucura”, “Ei, Amigo”, “Lili”, “Pedro Balão”, “Bom Brasileiro”, “Roda Gigante” e “Dia Perfeito”, que contou com a presença do irmão de Ricardo nos backing vocals ao lado do vocalista Beto Bruno.
Parafraseando a canção que abriu os trabalhos, quem não pôde estar no Circo Voador naquela noite perdeu uma apresentação especial. Essa pegada bem para cima, puxada por grandes hits, acabou sendo interrompida por um imprevisto técnico: o pedal da bateria quebrou, forçando o roadie a improvisar e transformar o surdo da bateria de Gabriel Azambuja no novo bumbo da noite. À primeira vista, parecia que o show seguiria aos trancos e barrancos. No entanto, logo surgiu uma sensação agridoce quando Marcelo Gross puxou um improviso acompanhado pelo baixista Eduardo e pelo tecladista Pedro Pelotas.
Foram pouco mais de 20 minutos de uma jam session catártica que evidenciou toda a capacidade de Gross como guitarrista, ao mesmo tempo em que escancarou como o problema técnico parecia não ter uma solução rápida. O vocalista Beto Bruno, volta e meia, ia questionar o roadie e o baterista Gabriel Azambuja, o “Boizinho”, mas não teve jeito: não havia uma solução à mão no palco do Circo Voador.
Beto estava visivelmente incomodado. Para tentar aliviar o clima e tornar a situação menos desconfortável para o público, o vocalista fazia algumas brincadeiras, batendo nos pratos, enquanto Boizinho assumiu o microfone e soltou alguns berros, tentando conduzir a psicodelia do improviso para um caminho menos tenso. Mas foi em vão.
Com a banda finalmente chegando ao consenso de que não havia condições de continuar com o show completo, Beto, Gross, Eduardo e Pelotas entregaram uma versão belíssima de “Sinceramente”, uma das grandes baladas do rock brasileiro dos anos 2000. Fim de música, fim de papo, com ânimos exaltados em contraste com muitos aplausos e reverências.




