Projeto reúne grandes nomes do rock em um álbum que chega ao palco do Circo Voador em 1º de outubro.
Em Relentless Gods, o cantor e compositor ibero-brasileiro Glaucco Ginard reúne uma rede de músicos que ajuda a dimensionar a ambição do projeto. Billy Sheehan assume o baixo, Edu Ardanuy contribui com as guitarras e Sergio Naciffe ocupa a bateria, em uma formação que também conta com parceiros da cena carioca, como Vinicius Giffoni e Cristiano Gavioli.
O resultado dessa jornada chega ao Circo Voador em 1º de outubro, com um repertório de rock cantado em inglês e surpresas prometidas para a apresentação. Foi a partir dessa proposta que a entrevista buscou entender os caminhos, as conexões e as histórias por trás de Relentless Gods.
Com o Morro Dois Irmãos ao fundo, o apartamento do músico, no Leblon, foi o ambiente ideal para um bate-papo olho no olho. No encontro, Glaucco relembrou o início de sua trajetória — quando hesitava entre o futebol e a faculdade de Psicologia — até a chegada ao estúdio Nas Nuvens, onde foi bem recebido pelo produtor Liminha.
Em um papo descontraído e pautado pelo reconhecimento mútuo entre jornalista e músico, pedi que Glaucco desenhasse a linha do tempo de sua carreira. Em uma resposta generosa, ele refez o caminho desde os tempos de escola, atravessando a década de 1990 e resgatando, inclusive, as coincidências entre seus primeiros passos na música e o auge do Mr. Big, com o acachapante sucesso do megahit “To Be With You”, presente no álbum Lean Into It.
Glaucco Ginard:
“São 20 anos que eu tenho ido e voltado pra Espanha, minha mãe é espanhola, eu tenho a nacionalidade espanhola desde os 16, idade essa em que estudei teoria musical na Villa-Lobos. Depois de uns anos definindo o que eu queria de fato, tive um grande produtor, amigo meu, que foi quem me fez conhecer Mr. Big, consequentemente Billy Sheehan. O nome dele é Mário Léo. Acabei tocando numa banda com ele chamada Snowpie. Nosso plano era estar nos Estados Unidos, mas ele quem terminou ficando por lá para estudar. Tive um grande aprendizado com ele. Era um baixista espetacular, um dos únicos do Brasil que realmente destrinchou a técnica do Billy Sheehan, né? Então ele me ajudou no primeiro disco, entrando de produtor e trazendo essa grande gama de influências que ampliou minha forma de compor.”
Em seguida, Glaucco, um cara alto e vestido como se fosse subir ao palco, com correntes e guias, começou a apresentar a proposta e explicar como funciona sua carreira de artista solo, que, desde o primeiro disco, foi baseada em um conceito.
Glaucco Ginard:
“A ideia era fazer cinco álbuns, dos quais eu já compus e lancei três. Até então eu estava sozinho, né? Por isso utilizei as letras G para iniciar o processo. O primeiro foi intitulado GG First Time, primeira vez; o segundo, GG Second Half, a segunda metade; já este álbum, Relentless Gods, seria chamado de GG Third Step, que é o terceiro tempo, né? Não, o terceiro passo.”
Ao avançar na cronologia, o músico resgatou faixas impulsionadas pela nostalgia. O principal destaque foi “Sweet Little Teacher”, presente no álbum Relentless Gods, uma homenagem a uma professora dos tempos de Colégio Pedro II. A faixa foi produzida por Mário Léo, no renomado estúdio Nas Nuvens, e contou com a guitarra de Vini Rosa, além do característico telefunked cedido por Ed Motta.
A engenharia de som trouxe outro trunfo: a mixagem de Marcelo Gomes, famoso por parcerias com Steve Vai em faixas como “The Crying Machine”. Segundo Glaucco, a música chegou aos ouvidos da lenda da guitarra, que arrematou o trabalho com um comentário simples, mas impactante: “The boy can sing”.
Em dado momento, perguntei sobre a diferença entre os trabalhos. Disse a ele que, a meu ver, o First Step tinha uma veia mais plural, com um investimento grande que possibilitou até a presença do músico Valeriy Stepanov, pianista de Moscou.
Ponderei que este trabalho seguia uma direção mais pop e que o Second Half era mais pesado, com mais riffs — fato que Glaucco mencionou ser proposital, já que passou a ter mais controle também na direção criativa.
Glaucco Ginard:
“Eu continuei gravando todas as guitarras ali. Mas, no primeiro disco, por exemplo, cara, é legal a gente contar que, por conta de eu ser um músico contratado de uma rede de hotéis da Espanha, pude ter 22 dias na África, em Zanzibar, que é uma ilha paradisíaca da Tanzânia. E essa foi a ilha onde nasceu Freddie Mercury. Separei uma música para compor lá e adicionei ao disco.”
Mas o destaque na elaboração de Second Half está na audácia do pedido de uma colaboração com Billy Sheehan, o “poderoso chefão” do Mr. Big.
Glaucco Ginard:
“Para o disco dois, eu falei: ‘Beleza, eu posso ter eu e amigos desconhecidos… Vou chamar a atenção da galera com o quê? Com a galera que eu gostaria que ainda estivesse na ativa […], o Dr. Sin’. Se acontecer algo pra mim, eu quero que esses caras se levantem. […] Só que, ao mesmo tempo, durante o processo, meu primo falou: ‘Glaucco, escreve pro Billy [Sheehan] pelas redes sociais e pede pra ele tocar uma música no teu disco dois, GG Second Half. E o cara me respondeu, bicho!’”
Glaucco Ginard:
“Falei: ‘Billy, tô escrevendo meu segundo disco, gostaria que você fizesse uma participação’. O Billy não é homem de uma banda, ele é o maior do mundo. Ele aceitou participar e já pintou o e-mail. Perguntei: ‘Quantas eu envio pra você, maestro?’. Sempre chamei ele de Master Billy. Ele respondeu: ‘Manda três’. Mandei as três e, no dia seguinte, chega o e-mail. Só que o início das palavras é: ‘Unfortunately’. Pra gente, quando lê ‘infelizmente’, você fala: ‘Puxa vida, não vai rolar’. Aí ele continuou: ‘Infelizmente eu não posso escolher a música que você quer que eu toque, essa escolha vai ser sua. Mas, se tu quiser, cara, eu posso tocar as três’.”
Glaucco Ginard:
“Era pra ele participar de uma música. Em um dia e meio, de uma possibilidade de ‘por favor, toque em uma canção’, o cara gravou quatro. Eu já tinha fechado com o Andria [Busic] no baixo, mantive o trato com ele, mas tomei o Billy. E aí, 15 dias depois, o cara pergunta: ‘Glaucco, não tem mais nenhuma música que tu quer que eu grave?’. Falei: ‘Billy, no money anymore, bicho. Não tenho mais dinheiro’. E ele falou: ‘Não tem problema, manda aí que eu vou gravar’. Meu irmão! No mínimo, o cara curtiu a minha forma de composição e a forma, com educação e ousadia, que eu tratei ele em todo momento. Você tem que arriscar, não tem como.”
O fato de o baixista ter ficado impressionado com as composições de Glaucco — pedindo inicialmente apenas três faixas para avaliar, passando a emprestar seus virtuosos dedilhados a quatro canções do segundo disco e, em seguida, a um álbum completo de 11 faixas —, confesso, deixou-me tão entretido que nem percebi que estava “caindo o mundo” do lado de fora.
Chegou a hora de falar de Relentless Gods. O nome foi inspirado na tatuagem que Billy Sheehan tem no braço e em mais um motivo:
Glaucco Ginard:
“O disco três seria GG Third Step. A situação de virar Relentless… Relentless tem um registro disso em vários lugares, mas Relentless Gods, não. Então sai no disco fazendo assim, porque eu tô apresentando o Deus do baixo e o Deus da guitarra, na minha opinião. Em outubro de 2023, menos de um mês após começar a turnê do Mr. Big, o Billy me escreve lá da Europa. Ele me pergunta: ‘Brother, quando é que vai sair o disco dois?’. Bicho, você para e pensa: porra, é o Billy Sheehan, cara! Do David Lee Roth, do Talas, do The Winery Dogs, do Sons of Apollo…”
Glaucco Ginard:
“Mandei pra ele: ‘Maestro Billy Sheehan, em 2024 eu gravarei meu terceiro disco, mas, dessa vez, gostaria que você fosse o único baixista’. E ele respondeu: ‘Okay, man, let’s make some rock together again’. Isso virou até letra na música “My Dream Is On”.”
Glaucco Ginard:
“Como disse o Felipe Andreoli, do Angra: ‘Se você não pagar por você, quem vai pagar?’. Não existe mais gravadora. É você quem tem que botar [dinheiro], mas existe uma galera que admira e facilita o caminho. E assim que tirei também o Edu Ardanuy do ‘banco de reservas’ e gravamos o álbum.”
Ao ser perguntado sobre a apresentação no Circo Voador, o músico admitiu que fechar a agenda não foi tarefa fácil. A viabilização da data no histórico palco sob os Arcos da Lapa veio graças ao suporte de uma lenda do rock nacional: ninguém menos que Guto Goffi, baterista do Barão Vermelho.
Glaucco Ginard:
“O Guto Goffi me deu uma força lá, e os caras liberaram a quinta-feira para mim no Circo Voador. E a gente começa todo o processo de trazer a galera… E o negócio vai crescendo e tu: ‘Meu Deus!’. O cara lá de cima fala: ‘Meu querido, eu te dei Eduardo Ardanuy, eu te dei Billy Sheehan, te dei Circo Voador, te dei Guto Goffi… Tu vai arregar? Com esse álbum mixado em Nashville, tu vai arregar? Faça o que tem que ser feito, é só dinheiro’. E a gente faz. Como? Nem me pergunte. (Risos)”
Por fim, fiz este questionamento: “Ao que você credita esses grandes nomes terem abraçado o seu projeto em primeiro lugar: à qualidade das canções, à forma como foi criada a relação ou a um misto dos dois?”
Glaucco Ginard:
“A musicalidade. E eu não tenho medo! Antigamente, os caras, as gravadoras, botavam o dinheiro, meu irmão. Agora você que tem que botar, sacou? Só que a admiração com que acontece durante a tua vida e durante cada disco, cada canção, tem uma galera que te facilita. Eu não preciso especificar quem facilita ou não, mas pode acreditar que existe gente facilitando, senão seria impossível você fazer coisas assim.”
O show no Circo Voador será no dia 1º de outubro e contará com a presença dos alunos da School of Rock, escola que introduz crianças ao rock, como banda de abertura. Além disso, Glaucco prometeu algumas surpresas e músicas além das presentes no disco para compor o show.

Serviço – Relentless Gods no Circo Voador
📅 Data: 1º de outubro de 2026
🕗 Horário: 20h
📍 Local: Circo Voador
📌 Endereço: R. dos Arcos, s/n, Lapa, Rio de Janeiro/RJ
🔞 Classificação etária: 18 anos. Maiores de 14 anos entram acompanhados dos pais ou responsáveis.
🎟️ Ingressos: R$ 80 (meia-entrada) e R$ 160 (inteira), à venda pela Eventim.




