Em sua estreia com a banda nos palcos cariocas, vocalista mostra versatilidade ao revisitar diferentes fases do grupo em noite dedicada ao clássico de 1996
Trinta anos depois de seu lançamento, Holy Land voltou a ocupar o centro das atenções em uma apresentação do Angra no Rio de Janeiro. Na noite de sexta-feira (18), a banda subiu ao palco do Vivo Rio para executar o álbum de 1996 na íntegra, em um show que também marcou a estreia de Alírio Netto como vocalista do grupo na cidade.
Lançado após Angels Cry, Holy Land ampliou a identidade musical que o Angra começava a consolidar, combinando Heavy Metal, elementos progressivos e sinfônicos, percussões, passagens acústicas e referências à música brasileira. Três décadas mais tarde, faixas como “Nothing to Say”, “Carolina IV”, “Make Believe”, “Z.I.T.O.” e “Deep Blue” seguem ocupando um lugar fundamental na história da banda.
Antes da viagem por esse repertório, a abertura ficou por conta da paulista Throw Me To The Wolves. Com um Death Metal Melódico que, em alguns momentos, remete à fase inicial do Arch Enemy, o quinteto encarou uma combinação pouco óbvia: sua sonoridade é consideravelmente mais extrema do que a do Angra e, quando o show começou, boa parte do público ainda entrava no Vivo Rio.





A diferença de estilos, no entanto, pouco importou. A Throw Me To The Wolves entregou uma boa apresentação e conseguiu cativar quem já estava na casa, enquanto a pista ganhava corpo aos poucos. Sem tentar adaptar sua proposta à atração principal, a banda apostou em sua própria identidade e aproveitou bem o espaço recebido.
Com o palco preparado para o Angra, a noite também carregava uma sensação de continuidade em relação à passagem anterior do grupo pela cidade. Esta foi a segunda apresentação consecutiva da banda no Rio dedicada à celebração de um álbum específico. Em agosto de 2025, no Sacadura 154, o grupo havia comemorado os 20 anos de Temple of Shadows, disco conceitual lançado em 2004 e construído em torno da jornada do personagem Shadow Hunter.
Desta vez, porém, havia uma mudança importante no palco. Alírio Netto fazia sua primeira apresentação no Rio como vocalista do Angra e, ao menos para este que escreve, não restam dúvidas de que ele é a escolha certa para ocupar o posto.
Essa percepção não vem apenas da capacidade de alcançar notas ou reproduzir melodias tecnicamente exigentes. A própria trajetória de Alírio ajuda a explicar por que sua entrada funciona tão bem. No teatro musical, ele passou por produções como Jesus Christ Superstar, interpretando Judas na montagem brasileira e Jesus na produção mexicana, além de protagonizar We Will Rock You como Galileo. No Metal, integrou bandas como Khallice, Age of Artemis e Shaman, além de ter feito parte do Queen Extravaganza, tributo oficial ao Queen produzido por Brian May e Roger Taylor.

Essa combinação de experiências oferece algo especialmente valioso dentro do Angra: versatilidade. A discografia do grupo atravessa três vocalistas anteriores com identidades muito particulares. André Matos, Edu Falaschi e Fabio Lione deixaram características próprias nas músicas que gravaram, e qualquer cantor que assuma esse repertório precisa lidar com essas diferenças sem transformar o palco em um exercício permanente de imitação.
Alírio parece compreender isso muito bem. Ao longo da noite, não houve a impressão de que ele tentava “ser” nenhum de seus antecessores. Sua abordagem passa mais por entender as características de cada música e usar os próprios recursos para interpretá-la. É justamente essa capacidade de transitar pelas diferentes fases do Angra sem perder a própria identidade que, para mim, confirma o acerto da escolha. Carisma e experiência de palco completam o pacote.
O show foi dividido em dois momentos. No primeiro, “Holy Land” assumiu completamente o protagonismo, com o álbum executado em sua sequência original. A proposta permitiu que canções mais frequentes no repertório dividissem espaço com composições menos presentes nos shows da banda.

Foi nessa primeira parte, contudo, que apareceu um dos problemas da noite. O VS (virtual sound) estava muito baixo e, em alguns momentos, praticamente inaudível. O recurso consiste em bases pré-gravadas que fazem parte das gravações originais, mas não são executadas ao vivo pelos músicos no palco. No caso do Angra, essas camadas têm participação importante na construção de diversos arranjos e ajudam a reproduzir elementos presentes nos discos.
Por isso, quando o VS praticamente desaparecia da mixagem, a sensação era de que faltava uma peça importante nas músicas. Em determinados momentos, a ausência dessas bases causou estranheza e chegou a gerar certa confusão para identificar alguns trechos, especialmente em um repertório como o de Holy Land, marcado por arranjos elaborados e diferentes elementos sobrepostos.
O problema não impediu, porém, que surgissem grandes momentos. Meu principal destaque da primeira metade veio justamente em uma música que exige bastante interpretação: Alírio esteve especialmente bem em “Deep Blue”, entregando uma versão que preservou o caráter da composição sem soar como uma simples reprodução da interpretação original de André Matos.
Se o primeiro set tinha como obrigação respeitar a estrutura de Holy Land, a segunda parte ofereceu um desafio diferente: atravessar décadas da discografia em poucos minutos. E foi aí que a versatilidade de Alírio ficou ainda mais evidente.




Do primeiro álbum veio a dificílima “Stand Away”. A fase mais recente apareceu com as intrincadas “Tide of Changes – Part I” e “Tide of Changes – Part II”, de Cycles of Pain, enquanto “Angels and Demons” e “Waiting Silence” recuperaram justamente Temple of Shadows, protagonista da passagem anterior do Angra pelo Rio.
Esse passeio pela discografia também reservou um momento particularmente emotivo. A homenagem a André Matos veio com “Wuthering Heights”, de Kate Bush, canção que ganhou uma ligação especial com o vocalista no Brasil a partir da versão gravada pelo Angra.
A reta final concentrou algumas das músicas mais reconhecidas da trajetória do grupo. “Carry On” foi cantada a plenos pulmões pelo público, antes de “Rebirth” e “Nova Era” encerrarem a apresentação.

Nem tudo, porém, funcionou tão bem fora do palco. Algumas pessoas reclamaram da lotação excessiva da pista premium, relatando um nível de desconforto que levou parte delas a deixar o setor e seguir para a pista comum simplesmente para conseguir mais espaço e respirar melhor.
Ao fim do show, era possível perceber algo que dava dimensão a essas reclamações. Enquanto a pista comum já estava bastante vazia, muita gente ainda deixava a área premium. Isso, evidentemente, não permite determinar quantos ingressos foram vendidos ou afirmar que a capacidade oficial do setor tenha sido ultrapassada, mas o desconforto relatado por parte do público merece ser considerado. É um ponto para o qual a produção deveria dar maior atenção, seja limitando a quantidade de ingressos destinados à pista premium ou readequando o espaço reservado ao setor.
Superados esses problemas, o saldo artístico da noite foi positivo e deixou uma questão interessante sobre os próximos passos do Angra. A banda passou pelo Rio pela segunda vez consecutiva celebrando um capítulo importante de sua discografia. Primeiro foi Temple of Shadows; agora, Holy Land. Revisitar esses trabalhos é válido e ajuda a manter viva uma história que merece ser celebrada. Mas uma banda que tantas vezes precisou se reconstruir também precisa continuar escrevendo essa história.
É nesse ponto que a ideia de renascimento, frequentemente citada por Rafael Bittencourt ao falar sobre a trajetória do Angra, ganha novamente significado. O grupo já atravessou rupturas, mudanças de formação e diferentes vocalistas sem deixar de seguir adiante. Não por acaso, Rebirth batizou o álbum que simbolizou uma de suas reconstruções mais importantes, em 2001. Agora, com Alírio, começa outro desses ciclos.

E talvez esteja justamente aí a parte mais interessante de sua chegada. O show no Vivo Rio já demonstrou que Alírio consegue interpretar com personalidade músicas registradas por André Matos, Edu Falaschi e Fabio Lione. O que ainda não sabemos — e o que mais desperta curiosidade — é como sua voz, experiência e contribuições artísticas poderão influenciar um próximo trabalho de inéditas do Angra.
Alírio poderia ter chegado antes, mas chega em um bom momento. O passado está sendo devidamente celebrado e, agora, parece natural querer descobrir o próximo passo. Se renascer sempre fez parte da história do Angra, esse novo recomeço só estará verdadeiramente completo quando deixar de interpretar apenas aquilo que veio antes e começar a produzir novo material.
Nesse sentido, terminar a noite com “Rebirth” e “Nova Era” ganhou um simbolismo difícil de ignorar. O Angra já mostrou que sabe olhar para sua história. Com Alírio Netto, agora queremos ouvir o que vem em seguida.




