Reflexões e críticas sobre o Rock in Rio 2026

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Passadas duas semanas do festival, com a cabeça mais fria, balanço divulgado e muito papo com amigos e com outras pessoas nas redes sociais, podemos chegar a algumas conclusões, observações e reflexões.

A edição de 2026, que ocupou os dois primeiros fins de semana de setembro, trouxe mais uma vez números que impressionam (leia aqui), mas também deixou muitos questionamentos e alguns aprendizados que a organização deve levar para a já confirmada edição de 2028.

Começando pelo público divulgado, a organização informou que 700 mil pessoas passaram pelo festival. Esses números podem parecer irreais, porém nota-se que, no mesmo balanço, foi divulgado que cerca de 30 mil pessoas trabalharam por dia no evento. E aqui vai uma crítica minha sobre a capacidade de público. Se, em dias de menor público, quando cerca de 70 mil pessoas estariam lá para os shows, tudo pareceu correr bem — ou seja, banheiros funcionando, praças de alimentação sem filas e circulação de público ocorrendo sem aperto —, nos dias de maior público o que se viu foi quase um caos: alguns banheiros com filas enormes, gargalos na circulação, filas quilométricas para retirar um simples sanduíche ou pegar uma bebida.

A tão falada chuva: Infelizmente, isso foge do controle da organização de qualquer evento em espaço aberto. Vale lembrar que o espaço ocupado pela Cidade do Rock é um parque olímpico, repleto de áreas de terra batida, que são forradas com grama artificial para reduzir o impacto e evitar que o público afunde na lama, como ocorreu em 1985 e 2001. Poderiam criar mais pontos de abrigo? Pense em como seria complexo fazer isso para um público gigantesco sem gerar problemas dos mais diversos, incluindo obstrução da visão.

Banheiros e limpeza geral merecem um destaque positivo. Sempre tudo limpo e funcionando. A cada edição que passa, a organização vem buscando melhorias. Mas nem tudo foram flores aqui, uma vez que, no último dia de evento, ainda por volta das 21h, simplesmente pararam de repor papel higiênico, o que acabou causando desconforto, principalmente para as mulheres. E aqui vai minha dica: sempre ande com lenço umedecido e um pacote de lenços descartáveis.

Segurança é outro fator muito importante a ser mencionado. Apesar de o balanço ter mostrado queda nos índices em relação à edição de 2024, no primeiro fim de semana do festival, em especial nos dias dedicados ao rock, o que se viu foram muitos relatos de furtos dentro do festival. Inclusive, duas quadrilhas especializadas em cometer esse tipo de crime em grandes eventos foram interceptadas e presas. Já no segundo fim de semana, não se viram tantos relatos como no primeiro, o que talvez tenha impactado nos números finais. Esse é um ponto importante para que a organização e os órgãos competentes trabalhem em conjunto já no primeiro dia da próxima edição.

Quanto à questão da alimentação, como citado anteriormente, houveram problemas pontuais nos dias mais cheios. Haviam muitas praças de alimentação espalhadas por toda a Cidade do Rock, mas, infelizmente, com preços altos, como em todo evento. E aqui vai uma dica para quem quiser ir em 2028: leve alimento de casa. Eles permitem que cada pessoa leve até cinco alimentos industrializados ou frutas cortadas em sacos tipo zip lock ou daqueles transparentes.

Utilizei os lockers em todos os dias em que fui, então levei o necessário para passar um dia lá dentro sem aperto. Achei o preço justo pelo conforto que me proporcionou e pelo que teria gasto se tivesse que comprar algo para comer lá.

Dois acertos foram a farmácia — obtive relatos de pessoas que precisaram e para as quais ela foi útil — e os minimercados, que tinham até micro-ondas para esquentar algo, caso fosse necessário.

Quanto ao transporte, houveram relatos de problemas com o Primeira Classe, desde motoristas se perdendo, filas para retornar ao final dos shows, ônibus sucateados e pelo alto valor cobrado. Pelo segundo ano, utilizei o Metrô+BRT e funcionou perfeitamente. Amigos que precisaram utilizar o BRT normal também relataram não terem tido problemas, apesar de, nesse caso, terem que caminhar um pouco mais.

Quanto aos palcos, apenas o Palco Mundo teve uma mudança. E que mudança! O “Palco Telão” foi um espetáculo à parte, principalmente nas bandas que souberam utilizar muito bem, fazendo dele um complemento do show. Assistir alguns shows mais de longe foi uma experiência bem legal para mim, uma vez que dava para ver a banda (ou artista) e todo esse espetáculo proporcionado.

Quanto ao som, finalmente parece que desta vez conseguiram resolver o antigo problema que pairava sobre o Palco Mundo. Se em edições passadas, quem estava do meio do gramado pra trás pouco ouvia, dessa vez não, mesmo lá do fundo se escutava bem e alto. Nos outros palcos seguiram o mesmo padrão de som com qualidade, com uma pequena ressalva para o Sunset, onde desta vez haviam artistas que atraíram público imenso e quando ficava mais para trás pouco se ouvia.

Outro problema recorrente foi o vazamento de som vindo de alguns estandes. Durante alguns shows, principalmente no Palco Sunset, chegava-se a ouvir mais o som vindo de determinado estande do que do próprio palco. Algo que pode ser facilmente resolvido simplesmente suspendendo a música nos estandes durante os horários dos shows, em acordo com as marcas.

Vamos ao tão criticado line-up.

Contrariando a fala de muitos de que “não tem mais rock no Rock in Rio”, o que se viu foi o contrário. Apesar de os dois primeiros dias terem sido dedicados ao rock, em todos os dias tivemos bandas de rock tocando por lá. Ainda que em palcos alternativos, como no dia 6 em que tivemos um palco Supernova inteiramente montado para o público do rock, além do Barão Vermelho abrindo o Palco Mundo e, em outros dias, apresentações no Global Village e na Highway Stage, como ocorreu com a Drenna no último dia de festival.

Mas não parou nisso. Tivemos shows memoráveis, como o do Maroon 5, que, contrariando até a mim, fez um show bem rock n’ roll, e o Twenty One Pilots, que poderia inclusive ser co-headliner de um dia com o Bring Me the Horizon (por que não?).

Apesar de não ser nossa praia, o dia do K-pop foi um acerto, assim como o dia do metal com bandas de metal moderno. Trouxeram renovação de público, e isso é importante para um festival longevo e com visão de futuro.

Focando mais no dia do metal, a renovação de público foi evidente. Ao contrário do dia do rock (dia do Foo Fighters), via-se um público bem jovem, na casa dos 20, 30 anos no máximo.

Infelizmente (ou felizmente, e aí depende do ponto de vista de cada um), os chamados medalhões estão cada vez mais optando por encher estádios sozinhos, o que faz mais sentido.

Uma questão que vale pontuar, apesar das várias nuances envolvidas, é a distribuição do line-up. Se em outras edições tivemos dias mais homogêneos, ou seja, bandas que conversavam entre si no mesmo dia, nesta tivemos alguns pontos fora do eixo, como o Twenty One Pilots em um dia basicamente de pop. Ficou nítido também que bandas como Detonautas e Capital Inicial poderiam ter ocupado o Palco Mundo, enquanto Nova Twins e The Hives poderiam ter ficado no Sunset. Da mesma forma, Roupa Nova, Péricles e Zara Larsson poderiam estar no Mundo, enquanto Jon Batiste, Luísa Sonza e Lola Young poderiam estar no Sunset. E aqui pontuo que não se trata de serem ruins ou bons, mas de shows que teriam funcionado melhor no palco menor, por serem mais intimistas.

A presença de marcas e ativações é outro ponto importante que vem causando grande impacto no festival, além de muitas críticas por parte de quem frequenta. Se, por um lado, são de extrema importância para que o festival exista, uma vez que são parceiras e injetam verba, por outro acabam causando certa poluição no espaço, criando filas imensas que, por vezes, provocam congestionamentos e aglomerações em áreas que deveriam ser de livre circulação. Talvez, já para a próxima edição, tais marcas devam adotar apenas o modelo de agendamento, fazendo com que se criem filas menores e pontuais.

Algo que a organização precisa ter mais atenção é com a área PCD. Embora não seja usuário desta área, pude observar que a que estava ao lado esquerdo do Palco Mundo tinha a visão de palco completamente obstruída por uma das house mix. Quem estava ali só via o telão. Pude observar ao parar em frente e vi relatos confirmando isso nas redes sociais.

Existem ainda muitas outras questões a serem respondidas, como o impacto direto na receita por meio dos impostos recolhidos, o total de lixo que de fato foi reciclado, dentre outras coisas. Mas o certo é que o impacto positivo que o festival vem trazendo, principalmente para a cidade ao longo de quatro décadas é inegável. Como podemos ver nos números apresentados no balanço geral divulgado, são milhares de empregos diretos e indiretos, aumento na taxa de ocupação hoteleira, aumento do consumo em bares, restaurantes e até supermercados, sem contar a música que, gostos à parte, nos dá a oportunidade de ouvir e conhecer artistas que muitas vezes não conhecemos.

Para finalizar essa longa resenha, gostaria de agradecer aos amigos Fred (Mangue do Rock), Tarcísio Chagas (Rock on Board) e Loquillo Panamá que além de me incentivarem, me ajudaram muito nesses dias com informações, trocas de experiência e muita resenha sobre o que vivemos e vimos no festival. E claro, ao Robson, que vem me dando todo apoio e suporte.

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Foto de Alexandre Rocha

Alexandre Rocha

Apaixonado por música, shows, vinis e cds. Especialista em dar pitaco sobre esse mundo.

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