Canto Cego confronta a tecnologia e a crise do presente em “Odiar o Fim”

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Novo EP conceitual da banda do Complexo da Maré une peso, poesia e crítica social para refletir sobre futuros ameaçados, desigualdade e a perda de espaço humano no mundo virtual.

O artista está constantemente em confronto — muitas vezes travando uma batalha interna e, por vezes, lutando contra o intangível. Certa vez, um sábio compositor do Recife disse: “O medo dá origem ao mal, o homem coletivo sente a necessidade de lutar. O orgulho, a arrogância, a glória enche a imaginação e o domínio“. Essa citação, extraída de “Monólogo ao Pé do Ouvido”, do Chico Science & Nação Zumbi, é um excelente ponto de partida para analisar o novo álbum conceitual da Canto Cego, que retrata um mundo em estado de ruptura — um planeta ameaçado, futuros sequestrados pela tecnologia, desigualdades ampliadas e estruturas de poder colonialistas.

A banda, que se orgulha de ter vindo do Complexo da Maré e se tornou uma das mais conhecidas da nova safra do rock nacional, resolveu enfrentar um novo inimigo invisível e intocável: a evolução da tecnologia e seus mecanismos. Afinal, a cada nova ferramenta desenvolvida, o fator humano é impactado, despertando o famigerado medo. Seja a Meta ou as empresas de streaming, a facilidade com que músicas geradas por inteligência artificial alcançam o topo das paradas, enquanto as produções humanas se tornam invisíveis, gera um sentimento geral de insatisfação e agonia.

O álbum, intitulado Odiar o Fim, divide-se em três partes, a começar pelo próprio título da obra, que lança uma provocação ao explorar a densidade e o significado da palavra “odiar”. A partir do jogo entre as palavras “odiar” e “adiar”, cria-se um diálogo com a reflexão do pensador indígena Ailton Krenak em Ideias para adiar o fim do mundo, no qual se entende que podemos sobreviver a um destino inevitável ou juntar forças para buscar saídas.

O grupo, que ostenta uma agenda de shows bem distribuída pelo Rio de Janeiro e pelo Brasil, utiliza elementos sonoros modernos em cada faixa — como as guitarras pesadas e distorcidas, influenciadas pelo nu metal — para dar vida à temática do disco. Trata-se de uma obra que chega em um momento crucial da carreira do grupo, consolidando-o não apenas como uma potência musical, mas também como uma voz representativa no combate a esse sistema virtual cruel.

Algumas faixas merecem destaque por atingirem em cheio suas propostas. A faixa-título utiliza o “odiar” como combustível para vencer a paralisia e a falta de perspectiva que nos cercam; “Paraquedas” constrói uma metáfora precisa sobre queda e sobrevivência; e “Margem” surge como um contraponto esperançoso, almejando dias de transformação.

A Canto Cego sempre soube unir peso, poesia e reflexão social em uma sonoridade urgente. A cada trabalho, o grupo se firma como referência para artistas contemporâneos que buscam caminhos parecidos, seguindo o rastro de nomes como O Rappa e Nação Zumbi, cujos ecos continuam vibrando forte nas composições da banda do Complexo da Maré.

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Foto de Roani Rock

Roani Rock

Apenas um jornalista falando do que gosta perdido no rock 'and' roll. As vezes, vocalista da Vicejo e da GranMostarda.

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Apenas um jornalista falando do que gosta perdido no rock 'and' roll. As vezes, vocalista da Vicejo e da GranMostarda.

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