Entre alertas de ventania e polêmicas nas redes sociais, cantor reuniu fãs para uma apresentação de quase três horas, com abertura da banda Gargant.
Se esse fosse um evento corriqueiro de uma sexta-feira qualquer no Circo, esta seria uma forma bem simplória de começar o texto: “o Circo Voador abriu sua lona mais uma vez, no último dia 07 de agosto, para receber Edu Falaschi, um dos maiores nomes do metal nacional, em celebração aos seus 35 anos de carreira”.
No decorrer das semanas que antecederam a data, porém, o evento já havia recebido um tempero e ganhado camadas de polêmica. No chamado “Angraverso”, onde quase tudo gera polêmica, o conflito desta vez envolveu o Circo Voador e o ex-vocalista do Angra, Fabio Lione, que foi erroneamente anunciado, em materiais impressos, como atração de abertura do show do Edu. O Circo Voador reconheceu o erro na divulgação e se retratou publicamente. Fabio Lione, porém, não reagiu bem à situação, o que gerou confusão nas redes sociais e acirrou ainda mais a rivalidade existente entre os fãs do Angra.
Como se isso, por si só, já não tivesse sido o bastante, o dia do evento foi marcado por alertas da Prefeitura sobre o risco de fortes ventos — tal qual os ocorridos em 29 de julho, quando diversas estruturas foram abaladas e vários pontos da cidade ficaram sem energia elétrica —, que colocaram em dúvida a realização do show.
Foram, ao todo, três avisos, sendo o último responsável por colocar a cidade em estágio 3. Isso levou os fãs a acreditar que mais uma vez veriam um show de Edu Falaschi ser adiado pelas forças da natureza, como havia ocorrido em 2024, quando uma apresentação do artista, no mesmo Circo Voador, precisou ser adiada devido aos alertas de temporal na cidade. Entretanto, apesar de alguns eventos culturais terem sido cancelados, como o Doce Maravilha, que teria entre as atrações as bandas Fresno, Raimundos e Charlie Brown Jr., a produção decidiu manter o show.
Mesmo com o show mantido, foi perceptível que os alertas afastaram parte do público. Ainda assim, quem decidiu enfrentar a ventania na cidade pôde conferir a abertura da banda carioca Gargant, antes da atração principal. A banda, formada por integrantes de outras bandas do underground carioca, como Ereboros e Black Priest, apresentou um set enxuto, com um heavy metal técnico e potente, incluindo músicas de seu álbum de estreia, Dead Night Defiance.

Um ponto alto da apresentação ocorreu durante a execução da música “Ghost Rider”, que teve ótima recepção do público. O destaque ficou por conta do excelente vocalista Guilherme Sevens, que usou como adorno uma espécie de lenço em torno da cabeça, formando um capuz e conferindo uma estética que combinou bastante com a sonoridade da banda. A apresentação terminou com uma versão de “The Wickerman”, do Iron Maiden, e com agradecimentos da banda à produtora Tomarock, que completou 23 anos recentemente, mantendo viva e movimentada a cena do rock do Rio de Janeiro.


Setlist — Gargant
- Intro
- Stormfall
- Ghost Riders
- Fallen King
- Sons of Chaos
- Battlechaser
- The Wicker Man (Iron Maiden)
Após um intervalo de cerca de 30 minutos, Edu Falaschi, a grande atração da noite, entrou no palco e foi bastante ovacionado pelo público — reação que se repetiu muitas outras vezes ao longo da apresentação. A combinação do repertório escolhido pelo público, da competência técnica da banda e do grande carisma de Edu fez a noite ganhar força desde o início.

O show, que marca o início da turnê, deu destaque ao álbum Mi’raj, que encerra a trilogia conceitual ao lado dos álbuns Vera Cruz e Eldorado. Também fez um apanhado de toda a extensa carreira do artista, passando pelas fases do Venus, Mitrium, Symbols, Almah e, é óbvio, seu período no Angra — especialmente os últimos anos de Edu na banda, com músicas tanto de Aurora Consurgens quanto de Aqua. Também merece menção a participação da carismática cantora italiana Veronica Bordacchini, da banda Fleshgod Apocalypse, que, além de interpretar as músicas “Mi’raj” e “Spread Your Fire”, fez um lindíssimo solo lírico.


Acredito que a tensão gerada antes do show, seja pelos alertas de tempestade, seja pelas polêmicas nas redes sociais, contribuiu para o clima catártico não só do público, mas também do próprio Edu, que se mostrava feliz por revisitar canções que há muito não eram executadas ao vivo, algumas delas apresentadas pela primeira vez.
Apesar de alguns problemas técnicos, como a guitarra de Diogo Mafra, que ficou desligada durante parte da primeira música (por culpa de um fã que acabou tomando um puxão de orelha do guitarrista), ou o violão de Edu, que não conseguiu ser amplificado, o cantor soube aproveitar essas falhas para animar o público, contando causos da época em que morava em Niterói ou brincando com a própria idade, chamando músicas mais antigas de “jurássicas”.



Outro destaque da noite foi a trinca de canções executadas em português no set: a balada “Bleeding Heart”, que foi praticamente inteira cantada em uma versão conhecida Brasil afora como “Agora Estou Sofrendo”, do grupo de forró Calcinha Preta; a belíssima “Intuição”, do álbum Mi’raj; e a nostálgica “Pegasus Fantasy”, tema da abertura brasileira do anime “Cavaleiros do Zodíaco”.
Após quase três horas de apresentação, uma inevitável dobradinha de clássicos do Angra, com “Rebirth” e “Nova Era”, fechou a noite que, ventanias e polêmicas à parte, fez a alegria do público presente no Circo.
Setlist — Edu Falaschi
- Watchers of the Light
- Ego Painted Grey (Angra)
- Heroes of Sand (Angra)
- Eyes in Flames (Symbols)
- Echoes of Vows
- Running Alone (Angra)
- Eyes of Time (Mitrium)
- Lease of Life (Angra)
- The Ancestry
- Unchained
- The Voice Commanding You (Angra)
- A Monster in Her Eyes (Angra)
- Leaving the Light (Venus)
- Arising Thunder (Angra)
- Land Ahoy / Eldorado
- Bleeding Heart (Angra, com refrão de “Agora Estou Sofrendo”)
- Birds of Prey (Almah)
- Intuição
- Spread Your Fire (Angra, com Veronica Bordacchini)
- Mi’raj (com Veronica Bordacchini)
- Pegasus Fantasy (MAKE-UP)
- Rebirth (Angra)
- Nova Era (Angra)
Fotos: Ian Dias




