Cá estamos no Rio de Janeiro, em uma daquelas noites quentes em que não se sabe o que esperar — ainda mais em um domingo à noite, pré-feriado. Para completar, estamos na efervescência de um clima conturbado pós-semana de eleição, que acabou empurrada para um segundo turno amargo para todo mundo: descontentou os que esperavam outro resultado, deixou perplexos os incrédulos diante da escolha alheia e exauriu até mesmo quem só buscava paz nas redes sociais, que viram as publicações se multiplicarem na tentativa de virada de votos.
Ao chegar à Agyto — outrora chamada Teatro Odisseia —, já estava rolando o show da Noitesó, uma banda que consegue cativar o público apesar de suas limitações. A casa tem uma boa acústica, mas quem ficou responsável pela mixagem do som não ajudou muito: as guitarras estavam altíssimas, e o vocal acabou abafado, o que dificultou a compreensão das letras. Todavia, “Quantas ruas eu caminhei até esquecer seu nome” foi um dos refrões que ecoaram pela noite. Já a última música trouxe uma energia lá em cima, mantendo o ritmo que o show sustentou do início ao fim.

Foi nesse momento que o bandleader sacou uma bandeira do candidato à Presidência, Lula, para selar seu posicionamento, disparando uma frase certeira: “Não existe emo de direita” — o que estabeleceu uma imediata identificação com o público, abarrotado de adesivos e adereços alusivos à campanha do atual presidente do país.

A percepção que se tinha após o show da Noitesó era de que a cena emo opera em um ecossistema próprio. Enquanto o DJ engatava faixas que eu nunca tinha ouvido na vida, a galera ao redor acompanhava tudo do início ao fim, vociferando as letras como se fossem o maior viral do TikTok da semana.
Por sinal, a produção do evento fez com que tudo ocorresse de forma rápida, o que é um ponto muito positivo. Tudo foi realizado de maneira bastante profissional: da troca de palco entre uma banda e outra ao trabalho dos roadies, que cuidavam das afinações por meio dos in-ears e PFL, de forma ágil e dinâmica, dialogando com o público.
A Tigers Jaw subiu ao palco com uma introdução acústica que ambientou a casa ao som de “It’s Ok”. O público reagia de forma efusiva à medida que a balada crescia no violão e no teclado, até que a banda mostrou suas “garras” e soltou o “rugido” em uma explosão repleta de guitarras, baixo e bateria na linda “Primary Colors”. Essa transição entre a calmaria do início e a tempestade de distorção deu o tom da festa.
Com excelentes dobras vocais, o grupo da Pensilvânia visivelmente se divertia em cena, e sua energia transbordava para uma plateia carioca que correspondia à altura, entre pulos e mosh pits.

Às vezes, a melhor coisa a se fazer quando se é escalado para experienciar o show de uma boa banda sobre a qual você não conhece nada é ser surpreendido a cada música. Melhor ainda é ver como as pessoas respondem a cada som tocado. Até a faixa mais nova deles foi ovacionada e, por isso, este que vos escreve nem se preocupou em filmar ou fotografar.
Definitivamente, o espaço da Agyto ficou pequeno para o tamanho dessa banda. Eles vão, com certeza, voltar — espero que em um espaço maior e com seu novo CPF de cidadãos honorários da cidade.
Setlist:
- It’s Ok
- Primary Colors
- Head Is Like a Sinking Stone
- The Sun
- Nervous Kids
- Between Your Band and the Other Band
- Anxious Blade
- Baptized on a Redwood Drive
- Hum
- June
- Never Saw It Coming
- Breezer
- Ghost
- Guardian
- Anniversary
- Staring at Empty Faces
- I Was Never Your Boyfriend
- Plane vs Tank vs Submarine
- Chemicals
- Lost on You
- I Saw Water




