Bandas e coletivos independentes do Rio se mobilizam em shows e atos pela defesa da democracia

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Hardcore de Rua e Todos pela Democracia acontecem nos dias 17 e 23 de outubro, no Méier e no Centro, reunindo bandas e coletivos em torno da defesa dos direitos fundamentais e da liberdade de expressão.

Foto da capa: Fernando Frazão

A cena independente do Rio de Janeiro terá dois eventos em outubro que aproximam música, mobilização coletiva e manifestação política. No dia 17, a Nortecore promove o Hardcore de Rua na Praça Agripino Grieco, no Méier. Já no dia 23, LOWD, Mokambo, NoSunnyDayz e TRAMA participam do Todos pela Democracia, no Centro da cidade.

Organizadas de maneira independente, as duas iniciativas ganharam forma após o primeiro turno das eleições de 2026, em meio à preocupação de seus idealizadores com o cenário político brasileiro e com os riscos que uma nova escalada da extrema direita e seu eventual retorno ao poder poderiam representar para a liberdade de expressão, a diversidade e a garantia de direitos fundamentais.

Embora tenham propostas e formatos distintos, os encontros compartilham a intenção de utilizar a música como instrumento de expressão política, aproximação com a população e defesa dos direitos democráticos.

“Hardcore de Rua” leva música e debates políticos às ruas do Méier

O primeiro evento acontece no sábado, 17 de outubro, a partir das 13h, na Praça Agripino Grieco, no Méier. O Hardcore de Rua é organizado pela Nortecore em parceria com o Leão Etíope do Méier, No Limiar e Saigon (Coletivo de Hardcore de São Gonçalo), reunindo apresentações musicais, palestras e falas sobre questões políticas e sociais.

Segundo Clara, integrante da Nortecore e uma das idealizadoras do evento, a proposta parte da percepção de que a cena Hardcore precisa ocupar mais espaços públicos e participar ativamente das discussões sobre o cenário político. Os organizadores manifestam preocupação com o avanço do neofascismo e defendem a garantia dos direitos constitucionais e da liberdade de expressão.

A Nortecore já realiza eventos de rua desde 2023, mas a organização desta edição exigiu uma articulação mais ampla. Por meio de contatos estabelecidos durante a produção, o coletivo se aproximou do Leão Etíope do Méier, que ajudou a viabilizar a utilização da Praça Agripino Grieco. Posteriormente, os coletivos No Limiar e Saigon também se juntaram à iniciativa, que atualmente envolve mais de dez pessoas.

“Todo trabalho até aqui é sobre coletividade, porque essa causa não é sobre mim, é algo muito maior que todos nós”, afirma Clara.

A programação prevê oito apresentações, com Diabo de Saia, Fardo, Clava, TRAMA, Kaiwoas e Audiozumb entre as bandas já confirmadas. Outros três grupos ainda aguardam confirmação. A proposta é reunir diferentes vertentes e gerações do Hardcore, além de abrir espaço para a participação de outros coletivos.

Para Clara, o encontro também representa uma resposta ao que considera uma ausência da própria cena na ocupação de espaços públicos e nos debates políticos. A intenção é realizar uma manifestação pacífica que permita o diálogo entre artistas, público e moradores da região.


“Todos pela Democracia” reúne bandas em defesa de direitos fundamentais

Seis dias depois, na sexta-feira, 23 de outubro, a partir das 17h, acontece o Todos pela Democracia, no Centro de Cultura e Arte Queerioca, localizado na Rua da Quitanda, 81, no Centro do Rio. O evento reunirá LOWD, Mokambo, NoSunnyDayz e TRAMA, em uma iniciativa idealizada por Raphael Matheus, vocalista da LOWD.

A proposta surgiu após o primeiro turno das eleições de 2026, em meio à preocupação dos músicos com o cenário político brasileiro e com os riscos que uma nova escalada da extrema direita e seu eventual retorno ao poder poderiam representar para a liberdade de expressão, a diversidade e a garantia de direitos fundamentais.

Raphael conta que os resultados eleitorais intensificaram uma reflexão que já vinha fazendo sobre o papel dos artistas e da sociedade na defesa da democracia. Mais do que manifestar insatisfação com o resultado das urnas, o músico passou a questionar como a cena independente poderia contribuir para ampliar o diálogo político e alcançar pessoas fora de seus círculos habituais.

“Está faltando a gente se comunicar, está faltando a gente chegar mais junto das pessoas”, afirma.

A ideia começou a tomar forma durante conversas por WhatsApp com amigos e músicos que compartilhavam preocupações semelhantes. Entre eles estava Bruno Leiroza, vocalista e guitarrista da Mokambo, que acompanhou o desenvolvimento da proposta desde os primeiros momentos.

Segundo Bruno, as conversas se estenderam por aproximadamente dois dias, até que Raphael sugeriu transformar aquela inquietação em uma iniciativa cultural.

“Nasceu de um desabafo, de amigos se consolando ali e tentando renovar as esperanças e as forças para seguir para o segundo turno”, relata Bruno.

A proposta foi compartilhada com outros músicos e colaboradores da cena independente, incluindo integrantes da Trama. Com o interesse dos participantes, foi criado um grupo específico para organizar o evento, reunindo as bandas que acabariam formando a programação.

A possibilidade de ampliar o número de apresentações chegou a ser discutida, mas os organizadores optaram por manter quatro grupos, sem descartar participações especiais durante os shows.

A definição do local também aconteceu de maneira coletiva. Budah Márcio, baixista da Mokambo, sugeriu o Centro de Cultura e Arte Queerioca, espaço dedicado à cultura e à diversidade no Centro do Rio. A proposta foi apresentada aos responsáveis pelo local, que acolheram a iniciativa.

A escolha dialoga com uma das preocupações centrais dos organizadores: a defesa dos direitos das minorias e da liberdade de expressão, temas que também atravessam a produção cultural independente.


Música como instrumento de diálogo e mobilização

Para Raphael, o evento também representa uma tentativa de ampliar o alcance das discussões políticas para além das redes sociais e dos ambientes em que artistas e integrantes da cena independente já estão inseridos.

O músico avalia que movimentos da extrema direita conseguiram estabelecer uma presença mais constante em diferentes comunidades, enquanto setores progressistas ainda enfrentam dificuldades para se comunicar com parcelas mais amplas da população.

A partir dessa percepção, passou a enxergar a organização de um evento musical como uma possibilidade de aproximação e conversa com pessoas que não necessariamente compartilham das mesmas posições políticas.

O nome Todos pela Democracia foi escolhido justamente com essa preocupação. Segundo Raphael, a intenção era evitar uma identificação excessivamente restritiva e criar um espaço que favorecesse o diálogo.

O vocalista também reconhece que assumir posições políticas publicamente pode trazer consequências profissionais e pessoais, especialmente para quem depende de relações de trabalho nas quais manifestações individuais podem gerar conflitos. Ainda assim, relata ter encontrado esperança ao perceber uma mobilização crescente de artistas e outras pessoas nas redes sociais após as eleições.

A proposta do festival surgiu como uma maneira de levar essa disposição para além do ambiente digital, respeitando as limitações financeiras e estruturais dos envolvidos.

“É o pouco que eu posso fazer. Queria poder fazer muito mais, mas é o que a gente tem para fazer como artista, como bandas, como a galera da cultura e como cidadão, dentro das nossas possibilidades financeiras e materiais”, explica Raphael.

Bruno resume a motivação coletiva de maneira semelhante:

“A gente precisa fazer um barulho, por menor que seja, mas o underground precisa fazer.”


Cena independente aposta na organização coletiva

Embora tenham surgido de articulações diferentes, os dois encontros apresentam pontos em comum. Tanto o Hardcore de Rua quanto o Todos pela Democracia foram organizados por músicos e integrantes da cena independente que decidiram transformar preocupações políticas em atividades culturais.

No Méier, a proposta se materializa na ocupação pacífica de uma praça pública, com apresentações e debates abertos à comunidade. No Centro, o encontro reúne quatro bandas em um espaço associado à diversidade, a partir de uma iniciativa construída coletivamente.

A presença da Trama nas duas programações também evidencia a circulação de músicos entre diferentes iniciativas da cena carioca, mesmo quando os eventos possuem organizações independentes.

Em ambos os casos, a coletividade aparece como elemento central. Mais do que apresentações musicais, os encontros pretendem criar espaços de convivência e discussão, aproximando a produção cultural independente de questões sociais e políticas que mobilizam seus participantes.


Serviço

Hardcore de Rua

Data: 17 de outubro de 2026, sábado
Horário: a partir das 13h
Local: Praça Agripino Grieco
Endereço: Rua Dias da Cruz, s/n, Méier – Rio de Janeiro/RJ
Bandas confirmadas: Diabo de Saia, Fardo, Clava, Trama e Kaiwoas

Todos pela Democracia

Data: 23 de outubro de 2026, sexta-feira
Horário: a partir das 17h
Local: Centro de Cultura e Arte Queerioca
Endereço: Rua da Quitanda, 81, Centro – Rio de Janeiro/RJ
Bandas: LOWD, Mokambo, NoSunnyDayz e Trama

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Foto de Rob Alves

Rob Alves

Banguense de nascimento, campograndense de criação e tijucano por usucapião — embora hoje more no Grajaú. Gerente de Projetos, um dia resolvi organizar os rolês de rock do Rio e acabei criando a Agenda Rock RJ.

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