Ao lado de Triunfe, Dredout e Rancore, banda capixaba comandou uma catarse coletiva no minifestival carioca.
A sexta-feira, 31 de julho de 2026, entrou para a história do underground carioca com a comemoração dos 23 anos da Tomarock Produções, no Circo Voador. O minifestival reuniu quatro bandas que fizeram jus à ocasião. Além de uma organização impecável, também me chamou atenção o som limpo e potente durante toda a noite, algo difícil de se encontrar em muitos casos.


A abertura ficou por conta da Triunfe, banda de hardcore melódico formada em São Gonçalo (RJ), em 2016. Mesmo com o público ainda chegando, os gonçalenses conseguiram estabelecer uma conexão imediata com quem chegou cedo para prestigiar a banda. A energia típica do hardcore tomou conta de todos os presentes logo de cara, com o público cantando junto e respondendo à entrega da banda no palco.




Com dois álbuns lançados — Alcateia (2017) e Instantes no Tempo (2023) —, a Triunfe apresentou um repertório equilibrado entre os dois trabalhos, mostrando maturidade e consistência. A formação contou com Gabriel Santos nos vocais, Mario Netto na guitarra, Pedro no baixo e Tavinho Santos na bateria.
Na sequência, foi a vez dos paulistanos da Dredout fazerem sua estreia não apenas no Rio de Janeiro, mas também nos palcos. A missão da banda não era das mais simples, afinal, quem frequenta a cena carioca sabe que o público costuma demorar a abraçar bandas pouco conhecidas. A Dredout, formada em 2025, conta com quatro singles lançados e tem em sua formação Jhayam, nos vocais; Mea Rafael, na guitarra; Vini Castellari, no baixo; e André Matheos, na bateria.




Com uma proposta bastante diferente das demais atrações da noite, a banda parece não ter conseguido conquistar o público. Ainda assim, entregou uma apresentação segura, com personalidade e um som pesado que mistura metal, reggae, UK bass e dancehall de forma bastante particular. A sensação que ficou foi a de que ainda há muito a mostrar e que, com o amadurecimento natural nos palcos, deve conquistar seu espaço em pouco tempo. Afinal, é formada por excelentes músicos.
Com o Circo Voador já completamente tomado pelo público, o clima mudou de patamar quando o Rancore subiu ao palco. Formada por Teco Martins, nos vocais; Candinho Uba e Gustavo Teixeira, nas guitarras; Rodrigo Caggegi, no baixo; e Alê Iafelice, na bateria, a banda mostrou por que continua sendo um dos nomes mais importantes do hardcore nacional surgidos nos anos 2000.





Misturando post-hardcore, rock alternativo e influências da música brasileira, o grupo apresentou um show intenso, repleto de músicas que já estão na ponta da língua da galera, o que fez com que o Circo inteiro cantasse praticamente do início ao fim. A resposta do público foi imediata e preparou o terreno da melhor forma possível para o encerramento da noite.
E então veio o Dead Fish, que mal pisou no palco e fez o Circo Voador vir abaixo. Aquele que talvez seja o maior representante do hardcore nacional mostrou por que mantém esse status há mais de três décadas. Com um repertório que transitou por diferentes fases da carreira, a banda promoveu uma verdadeira catarse coletiva, transformando a pista em um enorme mosh praticamente do início ao fim do show.





De todos os shows do Dead Fish que já vi, nunca havia visto tantos tênis voando e tantos celulares perdidos. A cena chamou a atenção até mesmo de Rodrigo Lima, que brincou com a quantidade de objetos espalhados pelo chão durante o show.
Teve de tudo: Pikachu fazendo mosh, crowd surfing, mulheres subindo no palco para cantar com a banda e cerveja sendo jogada para tudo quanto era lado — espero sinceramente que tenha sido apenas cerveja ou água.



Quando o público começou a deixar o Circo, a sensação era praticamente unânime: a de alma lavada. Uma daquelas noites que fazem lembrar por que o hardcore continua sendo muito mais do que um gênero musical ou apenas um estilo. E, como acontece com os melhores shows, ficou também a inevitável sensação de que poderia ter durado um pouco mais.
Setlist — Dead Fish
- A urgência
- Tão iguais
- Destruir tudo de novo
- Autonomia
- Escapando
- Molotov
- Estaremos lá
- Sausalito
- Asfalto
- Dentes amarelos
- Me ensina
- Sangue nas mãos
- Venceremos
- Shark Attack
- Não termina assim
- Senhor, seu troco
- Queda livre
- Contra todos
- Proprietários do terceiro mundo
- Canção para amigos
- Afasia
- Zero e um
- Sonho médio
- Bem-vindo ao clube
📸Fotos: Ian Dias




