Em seu álbum de estreia, a banda resgata referências dos anos 2000 sem abrir mão de personalidade, boas histórias e crítica bem-humorada.
Não se engane achando que OPA! é só mais um álbum genérico, no estilo anos 2000 e tanto faz. A Melton Sello usa uma sonoridade conhecida para entregar letras muito inteligentes e mais afiadas do que 99% das bandas que tocavam nos tempos de ouro da MTV. Tudo isso sem perder o bom humor, que já é marca registrada do grupo desde os primórdios.
As referências estão lá o tempo todo. Ao mesmo tempo em que você se conecta com as melodias, que parecem, sim, “mais do mesmo”, a banda nos cativa com histórias muito bem contadas em cada faixa, trazendo identificação e curiosidade a cada estrofe.
A primeira faixa, “O Primeiro Álbum!”, explica o nome do disco e me leva a refletir sobre o quão incrível é ver uma banda com tantos anos de estrada ainda ter vontade de lançar um trabalho completo. Quem faz parte desse mercado sabe o quão ingrato é o trabalho de produzir um álbum do zero em uma era em que as pessoas só escutam 30 segundos de um single que viraliza.

Mas o grupo demonstra não ligar muito para a lógica de consumo moderna e entra na brincadeira com a segunda faixa, “Mais do Mesmo (2000 e Tanto Faz)”, que tem uma introdução claramente inspirada em CBJr. A canção diz que “não tem nenhuma pretensão de ser inovador” e que, mesmo assim, “tem uma galera que tá sempre aqui”.
Essa sinceridade, dita de forma crua enquanto o instrumental te convida a pegar os fones de ouvido e sair sem rumo, é definitivamente algo que merecia estar mais presente na grande mídia, em novelas, filmes, séries e rádios. É popular demais para ficar escondida debaixo dos algoritmos das plataformas digitais.
E até a expressão “mais do mesmo” chega a soar injusta, pois, apesar das construções familiares que remetem ao início da carreira de bandas como Strike e Forfun, temos um trabalho de produção e mixagem bem maduros, sem perder a estética Y2K — mérito dividido com o produtor musical Matt Nunes, do estúdio Mojo, que assina também a gravação, a mixagem e a masterização do álbum.
OPA! segue com “Para com essa Parada” e “É Mole?”, dois singles que antecederam o álbum e têm vibe parecida. A primeira equilibra as distorções do pop-punk com leads de guitarra mais ensolarados, e a segunda traz um violão no melhor estilo luau na praia.
A sequência diminui ainda mais o ritmo e apresenta “Mudar pra Roça”, uma das faixas que mais me cativaram. É uma baladinha bem construída, que certamente vem para emocionar quem já viveu um relacionamento à distância — eu teria chorado, se não fossem os trocadilhos que arrancam um sorriso no fim de cada verso.
“Joia Dub” é uma faixa instrumental curtinha que nos lembra, de novo, das vantagens de ouvir um álbum na íntegra. Ela tem a missão de encerrar a parte mais alegre do álbum e leva o nosso protagonista para momentos de arrependimento e reflexão, começando com o reggae rock de “Dei Bobeira”. Quem nunca?


A estética continua em “Umbigo”, que traz elementos de sopro, ampliando a paleta sonora do disco e provando que há muito trabalho sério por trás de cada composição descontraída. Depois, “Microplásticos” retoma o pop-punk ritmado, no melhor estilo Green Day, com direito à participação da atriz Maitê Padilha nos vocais.
Já em “O Pior TikToker da Minha Rua”, Melton Sello une passado e presente ao fazer uma clara referência a um clássico do Forfun, utilizando elementos atuais. O resultado é uma crítica bem-humorada aos modelos de trabalho que já não fazem sentido na ótica das novas gerações. Confesso que a coluna doeu ouvindo essa aqui.
“Mais um Pouco” é uma faixa de 1:07 que volta à urgência do pop-punk misturada ao hardcore e funciona como interlúdio para a faixa final, “Boto Fé”. Essa é uma espécie de oração ou mantra que coroa o disco com a dose ideal de otimismo.
Em suma, OPA! se destaca como um belo trabalho que merece todas as honras por resgatar o estilo que marcou uma geração inteira sem parecer preso ao passado.
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